Preservação

A Mata Atlântica no Parque do Zizo encontra-se em avançado estado de conservação. Aqui não há espécies introduzidas nem animais domésticos ou outro impacto humano. É a floresta em seu mais puro estado de conservação.

Acesso

O acesso ao Parque do Zizo é fácil e qualquer carro chega até nosso estacionamento, a 700mts da pousada.
Veja como chegar.

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Dna. Quinha
Agora, passados já quase 30 anos completos, em 25 de setembro vindouro, posso falar, posso escrever sem aquela dor funda que me esmagava o coração. Claro, penso sempre nele, rezo muito por ele e peço-lhe que vele por nós – a sua família – lá do lugar que Deus reserva para os seus eleitos.
Sim, estou falando do Zizo, como era chamado pelos inúmeros amigos, por todos aqueles que também o amaram. E eram, ou melhor, são muitos os que estão comovidos, mas alegres e felizes como nós, pelo resgate que se faz de sua memória. Esse sempre foi um ponto de honra para os irmãos Aldo e Vital que, há muito tempo, vinham trabalhando por essa causa tão justa, tão importante quanto necessária para todos nós.
O Zizo era um menino precioso, especial, muito especial. Afável, doce, manso, disponível, cheio de amor e caridade. Extremamente sensível, tratava as pessoas com o maior respeito, sem distinção entre os humildes e os mais privilegiados.
Da extrema sensibilidade dele, quero relatar aqui o episódio seguinte: meu marido, Luiz Balboni, homem trabalhador e progressista – a quem São Miguel deve muito, no campo financeiro e político – teve uma fábrica de raspas de mandioca. O Luizinho, na ocasião, estudava na escola Politécnica, em São Paulo. Nas férias, quando vinha para casa, às vezes, faltara um empregado na fábrica e o Luiz o chamava para trabalhar no lugar do faltoso. Um dia, ele me disse: “Mãe, o Pai pensa que eu sou preguiçoso porque não gosto de trabalhar na fábrica. É que lá trabalha o Quico, meu companheiro de escola, na fazenda. E daí eu sinto vergonha, eu, estudando para doutor, e meu amigo trabalhando de empregado de meu pai…”.
Assim era meu filho. Alegre, gostava de música, tocava violão, adorava estar com os amigos.
O início dos anos sessenta foi a época em que meu marido instalou aqui em São Miguel Arcanjo sua fábrica de farinha de mandioca. É que o governo incentivara bastante o surgimento delas – instalaram-se mais ou menos umas 90 fábricas no Estado – porque o nosso trigo não era suficiente para atender ao consumo interno, e essa seria a forma de complementar essa escassez. No caso do pão, havia uma porcentagem X na mistura do amido de mandioca ao trigo, o que deixava o pãozinho meio amarelado.
Porém, abruptamente, ou melhor, sem a menor preocupação ou constrangimento com a situação dos donos das fábricas, o governo começou a subsidiar o trigo e suspendeu a mistura, e o amido de mandioca perdeu completamente o mercado. Mas, para os produtores prejudicados, ficou a enorme folha de pagamento e os inúmeros compromissos que não puderam ser saldados. E assim, o Luiz perdeu a fábrica e não pode mais arcar com as despesas dos estudos dos filhos mais velhos. E eles começaram a trabalhar.
Em São Paulo, moraram numa minúscula quitinete que, mesmo tão pequenina, tornou-se o abrigo de estudantes pobres ou estrangeiros que freqüentavam as faculdades e ali se hospedavam até arranjar onde permanecer. Durante a estadia dos três – Luizinho, Aldo e Vital – nessa quitinete, eu só pude ficar com eles uma única vez. Queria estar com eles, dormir perto deles, lavar-lhes as roupas, cozinhar para eles… Mas, nunca havia lugar para mim. Havia sim, sempre, um estudante precisando de um canto para ficar. Essa quitinete ficava na rua Maria Antonia, perto das duas faculdades – o centro nervoso dos estudantes – na época da ditadura militar que oprimia o povo.
Na efervescência desses dias, em meio a protestos estudantis, reuniões tumultuadas, a polícia prendendo e torturando gente, instalado o caos, a violência imperava. Tudo isso e mais a revolta pela dor e humilhação do Pai – pelo qual ele tinha e todos os irmãos têm um justo orgulho e uma grande admiração – que havia perdido tudo que construíra em anos e anos de trabalho árduo, incessante e produtivo, vítima de uma lei autoritária e injusta do governo militar, imagino eu, foi para o Zizo a gota d’água. Pela sua formação, pela sua vocação, pelo seu sonho de um mundo melhor, um Brasil mais justo, mais humano e mais fraterno, amadureceu nele uma resolução, que certamente vinha tomando forma na sua cabeça há muito tempo. E corajoso e valente que era, entrou para a luta armada, onde não ficou muito tempo.
Em agosto, numa de suas vindas para cá, contou-me que havia mudado de casa. Já não agüentava tanta gente ao seu redor. Estava cansado do contínuo vai e vem. Queria agora, sossego e privacidade. Havia trancado a matrícula na faculdade e ia ensinar matemática num grupo escolar na Vila Sônia. Sei, agora, que essa história era em parte verdadeira. Mas, foi contada para que eu ficasse tranqüila quanto à sua vida em São Paulo. E eu fiquei mesmo muito feliz. Mas, na verdade, eu creio que foi nesse momento que ele entrou para a clandestinidade.
No dia 7 de setembro, voltou para casa pela última vez. Na hora do almoço, deu comida para o irmãozinho caçula – o Marcelo – fazendo aviãozinho para ele comer melhor.
Acabando o almoço, pôs-me o violão ao colo e olhando-me firmemente com seus lindos olhos verdes, disse: “Mãe, cante Sussuarana”. Sussuarana é uma música sertaneja muito antiga e muito linda. Conheci-a em 1931 quando moramos em São Manoel, onde papai foi delegado de polícia. Lá, mamãe arranjou uma costureira ótima que se tornou nossa amiga. Numa conversa, ela me contou que perdera um sobrinho de 16 anos, que adorava música. Teve uma doença súbita e um pouco antes de morrer pediu que lhe cantassem Sussuarana. Eu era menina e esse relato impressionou-me muito e um dia contei-o aos meus filhos. E eu cantei Sussuarana para o meu filho, mas não entendi nada. Jamais, jamais imaginaria…
E meu filho morreu no dia 25 do mesmo mês. Foi ceifada assim, uma vida jovem, preciosa e promissora. Posso, também agora, e quero mesmo, agradecer a Deus o filho maravilhoso que eu tive e o tempo que Ele permitiu que ficasse comigo.

Francisca Áurea Fogaça Balboni, mãe do Zizo
Janeiro de 2002

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Vital F. Balboni
Os anos foram passando e, gradativamente, fomos descobrindo que podíamos lidar com uma ruptura que violentou nossas vidas. De repente, bateu saudade. Os amigos começaram a lembrar os momentos que desfrutaram juntos, a juventude que habitava nosso peito. Todos adoravam o Zizo. Foi uma pessoa intrigante, bonita por natureza. Marcou época na pequena São Miguel Arcanjo de antigamente. Seus amigos e amigas sempre nos encontram trazendo relatos de momentos especiais intensamente vividos com ele.
O Zizo foi um jovem sonhador, que certo dia acreditou que mudaria o mundo. Na turbulência do final dos anos sessenta, quando experimentávamos o regime de força na maioria dos países latino-americanos, ditaduras selvagens ceifaram milhares de vidas que desafiavam seu poder e esmagaram todos os movimentos que queriam liberdade e igualdade. Hoje estamos aprendendo que essas vidas não foram perdidas em vão, desaguaram num mar onde reina uma jovem democracia.
Luiz Fogaça Balboni, que tão carinhosamente chamamos de Zizo, foi morto numa tarde do dia 25 de setembro de 1969, surpreendido por uma emboscada preparada pelo delegado Fleury, que não hesitou em ficar mais de três horas com o ferido em seu poder antes de levá-lo ao Hospital das Clínicas, a apenas cinco minutos do local, onde faleceu horas depois por não resistir aos procedimentos cirúrgicos.
No início de 1998, o Estado reconheceu que matou um dos seus cidadãos e, de acordo com a lei, indenizou a família. Foram inúmeras as pessoas que nos ajudaram nessa árdua tarefa de pesquisar e apresentar provas documentais de tudo que ocorreu à quase trinta anos atrás. Sem querer ser injusto com os demais, ressalto o trabalho do Grupo Tortura Nunca Mais, do Deputado Nilmário Miranda (PT-MG), que incansavelmente trabalhou por vontade própria na Comissão dos Desaparecidos Políticos e, finalmente, Manoel Cyirillo, testemunha viva do acontecimento, cujo depoimento nos emocionou muito. A todos somos muito agradecidos.
No bojo desses acontecimentos, estava ali como uma brasa quietinha o desejo imenso de fazer alguma coisa, algo que resgatasse a memória do Zizo, sua vida, sua história, seus amigos, suas amigas, seus sonhos, sua vontade imensa de mudar o mundo para melhor.
A indenização de alguma forma deu um empurrão naquela porta semi-aberta que guardava nossos sonhos. As possibilidades começaram a tornar-se reais, era possível fazer alguma coisa. Queríamos fazer um movimento que perdurasse através dos anos, alguma coisa relevante para a humanidade, algo que transcendesse o tempo, para homenagear o Zizo.
Foi assim que nasceu o Parque Ecológico do Zizo, área de Mata Atlântica primária, na região de São Miguel Arcanjo – SP. A maior parte do Parque será mantida de forma intacta, e será transformada numa RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural para que as gerações futuras possam desfrutar da sua riqueza natural preservada. A outra área faz parte de um projeto auto-sustentado, pelo qual, com a exploração inteligente do ecoturismo, buscaremos sustentação para a manutenção permanente do Parque.
Com a aplicação dos recursos já conseguimos algumas façanhas como construir, no meio do sertão, uma ponte com vão livre de 11 metros sobre o rio Ouro Fino, viabilizando assim a passagem de materiais para a construção da nossa base operacional de apoio. Nosso “rancho”, já construído em alvenaria e madeira, conta com ampla cozinha, água corrente na torneira, alojamento para 10 pessoas, banheiro com água quente e privada ligada a fossa séptica.
Nossa atividade atual vem sendo catalogar riquezas naturais como cachoeiras, afluentes, córregos, árvores imensas, das quais ainda desconhecemos o nome científico, abrir trilhas, enfim, um imenso trabalho que só está começando.

Vital Fogaça Balboni, irmão do Zizo
Janeiro de 1999

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Manoel Cyrillo
Corriam os idos de 1969, a longa noite dominava o país. Qualquer observador mais afoito poderia até dizer que a escuridão encurralara a todos, não haveria mais saída. Soara o toque de recolher. Ruas desertas, onde uns poucos vultos moviam-se, seriam a comprovação desse pensamento. Só as criaturas das sombras tinha vez e voz.
Engano. Ledo engano…
Quando o sol se põe, lá no alto surgem estrelas. Primeiro uma, depois outra, acolá mais outra e, logo logo milhares, milhões delas, umas aparentemente desgarradas, outras tantas caminhando em grupo, todas em conjunto afrontando e vencendo as trevas.
Na longa noite em que país foi mergulhado, quiseram os fatos que o Zizo fosse uma daquelas estrelas. Logo ele, o segundo dos oito filhos do sr. Luiz Balboni e de dona Francisca. Zizo, Luis Fogaça Balboni, este era o seu nome completo, foi uma criança como muitas outras, nada de excepcional. Há pouco a se dizer, são muitas as lembranças. Era um ótimo filho, um irmão amigo, um amigo irmão. Dançava como tantos, sorria como poucos, subia em árvores como ninguém. Era um mestre com um violão, um mestre do povo, um violeiro. Gostava muito de ler, chegava a devorar livros. Com garra e gula preparava-se para o amanhã, sonhava.
Em um certo instante, deixou a sua São Miguel Arcanjo e foi estudar em São Paulo, havia entrado na Poli. Preparava-se para o amanhã, voava. Zizo tinha norte, sabia onde estava, sabia o que queria. Gente assim é um perigo para as forças das trevas, eles têm luz própria! Diz o documento lavrado pelos seus algozes: no dia 25 de setembro de 1969, aos 24 anos de idade, Luiz Fogaça Balboni foi abatido.
Engano, Ledo engano…
Se o processo foi doloroso para os pais, os irmãos, os amigos; foi para todos os amigos. Se o processo foi doloroso para o país, o Zizo simplesmente transfigurou-se de estrela em estrela cadente, guia.
Como ontem, hoje prossegue a sua trajetória, indicando-nos o caminho de como preservar as nossas mais profundas raízes.
O Parque é uma continuação de um ideal de vida.
Viva o Parque do Zizo!

Manoel Cyrillo, a última pessoa a estar com o Zizo ainda vivo.
Setembro de 1999

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Marina Silva
A cantora entoava o Hino da Independência num solo à capela e nós repetíamos o estribilho: “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Em torno, o frescor da Mata Atlântica cheirosa, barulho de riacho, de folhas. No centro, a memória de um jovem estudante bonito, generoso, que poderia estar ali, entre seus irmãos e amigos, aos 63 anos. Mas morreu aos 24, durante a ditadura militar, numa emboscada armada por delegados do DOPS, perto da avenida Paulista, em São Paulo.

De repente me dei conta de que estávamos retomando – especialmente a família de Luiz Fogaça Balboni, o Zizo – a saga de quem resolveu não apenas cantar o refrão do Hino, mas vivê-lo com radicalidade, assumindo morrer numa guerra de objetivos não bélicos, não de conquista de territórios, mas de conquista de democracia, para que o Brasil fosse uma pátria livre.

Outros jovens dos anos 1960 e 70 estavam ali, muitos deles pais de moços e moças que hoje tem a idade do amigo quando foi morto. Quando passam pelo quarto dos filhos, talvez achem que ainda são meninos e meninas e lhes cobrem os pés, apagam a luz, fecham a porta. E, no entanto, com a mesma idade, foram uma força criativa, inovadora, corajosa, que abandonou todas as proteções familiares e institucionais para correr os riscos de lutar pelos tesouros mais profundos do Brasil, pelo direito de ir e vir, de pensar e falar, participar da vida nacional, escolher rumos.

Isso aconteceu no sábado, dia 16 de agosto. Juntamente com o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, fui à inauguração de uma escultura em homenagem a Zizo, como parte do projeto “Direito à Memória e à Verdade”. Ela fica no Parque do Zizo, no município de São Miguel Arcanjo, uma área de preservação ambiental com 300 hectares, implantada por seus irmãos com o dinheiro da indenização aprovada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

A ONG APAZ cuida do espaço há mais de dez anos e desenvolve ali atividades que unem a educação ambiental de crianças e jovens, como base para o aprendizado dos valores de cidadania, e a observação de pássaros e outros seres da floresta, catalogando-os e estudando seus hábitos. Mais de 250 espécies de aves já foram identificadas, além de onça parda, jaguatiricas, uma família de monos carvoeiros, o maior primata das Américas, e outros animais que guardam a riqueza rara da Mata Atlântica original.

A Mata Atlântica sabe como ninguém otimizar espaços e a energia da terra. Nas árvores nasce outra floresta aérea de bromélias, liquens, cipós, uma profusão de vida que não se enraiza diretamente no chão. É uma sinergia total. Como se fossem verdadeiros condomínios vegetais. Parece que agora que sabe que só lhe restou 7% de seu território, a floresta radicalizou na exuberância que enfeita o parque que contribui para que ela sobreviva. A família de Zizo imaginou, inicialmente, construir uma maternidade com a indenização, numa simbólica acolhida aos filhos e netos que ele não teve tempo de ter. Com a opção pelo parque, acabou, de certa forma, fazendo uma maternidade. Para os seres humanos, o parque servirá para estimular o contínuo renascimento, em nossos corações, de sonhos como aqueles que levaram a geração de Zizo à total entrega à causa da liberdade e da justiça.

Será ainda a maternidade de borboletas, antas, macacos, cobras, insetos, passarinhos. E também o espaço para elaborar o luto dos anos de chumbo, narrar o trauma, como diz Marcio Seligmann-Silva, no seu texto “Narrar o trauma. A questão dos testemunho de catástrofes históricas”. Para não deixar a neurose da raiva e da vingança tomar conta e ocupar o lugar da criação, da relação amorosa com o universo. A vitalidade de um parque é o melhor cenário para que a lembrança seja profundamente generosa, até com quem oprimiu, pois mesmo essas pessoas são beneficiárias da liberdade e da democracia.

Não conheci o Zizo, mas reconheço a força que o levou a lutar para refazer o mundo de seu tempo. Reconheço a juventude pulsando em seus atos, alerta, vigorosa, valente, certa de estar atuando em favor de seu ideal de país. Reconheço seus passos apressados, ao encontro da realização do impossível e, depois, fugindo da perseguição, ressoando na calçada, até serem freados por uma bala no peito. Reconheço no seu apelido a intimidade que a família empresta ao Brasil para lembrá-lo no mesmo código de amor de pais e irmãos que o tornou único na infância e, agora, é expressão de um Zizo coletivo que permanecerá neste memorial onde outros jovens virão aprender a gostar da vida em eterno recomeço, expressa na natureza.

Não por acaso Zizo dá nome a uma parte da mata que teima e resiste à destruição, à violência, aos equívocos da insensatez e sobrevive aos seus algozes, sendo-lhes necessária e fundamental.

Marina Silva já foi senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente. Concorreu às eleições presidenciais de 2010 pelo PV, recebendo quase 20 milhões de votos.
Agosto de 2008

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